O Funeral Régio dos Kenriths | Ilust. Manuel Castañón | Wizards of the Coast
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O Magic: the Gathering está morto! Vida longa ao Magic!

por Thiago Marques
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Nos círculos de jogadores e colecionadores do maior e mais antigo trading card game (TCG), Magic: the Gathering (MTG), não é raro ouvir que o jogo está “morto” ou “morrendo”. No entanto, essas afirmações frequentemente não refletem a realidade do estado atual de Magic, que continua a ser um dos jogos de cartas colecionáveis mais populares do mundo.


Uma onda de insatisfação

O descontentamento cresce entre os apaixonados jogadores, e não faltam razões para isso. As comunidades estão inquietas diante da atual situação do card game da Wizards of the Coast, uma subsidiária da gigante Hasbro. Desde o constante fluxo de novas coleções até as mudanças no cenário competitivo, do notável aumento de poder nas cartas, conhecido como “power creep”, à evolução dos preços em produtos selados, a empresa parece encontrar maneiras de desapontar gregos e troianos, ainda que não todos de uma vez, como iremos discutir a seguir.

Universes Beyond

A “bola da vez” das reclamações constatadas pela internet foi o anúncio da cooperação entre o Magic: the Gathering e a Marvel, trazendo os heróis e vilões dos quadrinhos para os papelões das cinco cores da magia.

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Anúncio de colaboração entre Magic: the Gathering e a Marvel.

Fruto dos crossovers que já abordaram de My Little Pony a Warhammer 40K, de The Walking Dead a Fortnite e de O Senhor dos Anéis a Jurassic Park, a sensação de “diabéisso?” na mente de muitos dos adeptos de MTG tem levado a críticas ácidas à Hasbro e às figuras que desenvolvem e apresentam ao público as mudanças no jogo.

A submarca Universes Beyond transformou Magic: the Gathering em uma plataforma para apresentar uma ampla gama de propriedades intelectuais ao jogo. A Wizards of the Coast argumenta que esses crossovers são uma forma eficaz de atrair novos jogadores para o hobby. Isso não é difícil de entender, especialmente considerando que o Magic carece de outros meios para atrair o público, como Pokémon e Yu-Gi-Oh! fazem com seus animes, mangás, brinquedos e uma ampla variedade de jogos digitais.

No entanto, para os críticos, essas colaborações parecem apenas uma estratégia gananciosa que compromete a identidade única do jogo, que originalmente possuía uma narrativa cativante e própria.

O Magic: the Gathering está morto! Vida longa ao Magic!
Cobiça | Ilust. Izzy | Wizards of the Coast

A diversidade de opiniões

Em um terceiro olhar, há jogadores veteranos que, surpreendentemente, acolhem essas mudanças. Eles apreciam a inclusão dessas cartas em seus decks e lembram que seu uso é restrito a formatos “Eternal” como Vintage, Legacy, Commander e Pauper. Mesmo com a introdução da coleção O Senhor dos Anéis: Contos da Terra Média ao formato Modern, esses jogadores veem valor nas mudanças que a Wizards of the Coast está promovendo.”

Uma miríade de variantes

A explosão de títulos do Universes Beyond pode ser considerada por muitos como uma sobrecarga para o jogo, enquanto a proliferação de variantes de cartas tem deixado até mesmo os jogadores mais tolerantes perplexos com as mudanças introduzidas pela Wizards.

Cada vez mais, vemos jogadores verificando minuciosamente as cartas jogadas por seus oponentes, tentando identificar até mesmo as cartas mais básicas de cada formato. As coleções mais recentes trazem uma profusão crescente de variantes, com designs que se afastam cada vez mais do tradicional, criando um cenário frequentemente confuso.

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Variantes “Showcase” de Magic: the Gathering. | Wizards of the Coast

Power creep

Uma tendência inegável é a crescente potência das cartas no Magic: the Gathering nos tempos atuais, superando em muito os padrões do passado. Criaturas agora se tornam mais acessíveis e vêm com habilidades e atributos mais imponentes. Outras mágicas seguem uma trajetória semelhante, tornando-se cada vez mais versáteis, o que, na minha opinião, representa uma releitura por vezes excessiva das antigas cartas multifuncionais, como os Medalhões e Comandos.

Feliz ou infelizmente, esse tipo de desenvolvimento é extremamente comum nos jogos em geral e é o que garante o “frescor” e que torna o Magic impactante a cada lançamento de coleção.

O desafio do formato Padrão

O que um dia foi o formato mais popular nos torneios locais Friday Night Magic, o Standard do Magic: the Gathering, está atualmente enfrentando um dilema significativo. A estagnação do metagame tornou-se um problema notável. Com uma profusão de ferramentas analíticas online e um constante fluxo de dados de torneios e decks gerados pelo MTG Arena, os jogadores agora têm uma visão cristalina sobre quais estratégias utilizar neste formato, que oferece a menor reserva de cartas disponíveis entre todos os formatos promovidos oficialmente.

Os banimentos, embora comuns, frequentemente deixam os jogadores insatisfeitos, parecendo mais um curativo temporário do que uma solução eficaz. Na maioria das vezes, outra “bomba” surge para ocupar o espaço deixado pelas cartas banidas.

A Wizards of the Coast já anunciou algumas medidas para enfrentar a impopularidade do Standard, incluindo a desaceleração da rotação das coleções e o renascimento do Standard Showdown. Essas mudanças buscam revitalizar a experiência dos jogadores neste formato desafiador.

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Sheoldred, o Apocalipse | Ilust. Chris Rahn | Wizards of the Coast

O custo do Magic: Uma realidade complexa

O Magic é um hobby apaixonante, mas o fator custo tem gerado debates acalorados. Não bastasse ser um produto importado, sujeito às oscilações da moeda, as mudanças na distribuição de produtos selados agravaram a situação. A fusão dos Draft Boosters com Set Boosters, resultando nos Boosters de Jogo (Play Boosters), não apenas aumentou o custo de aquisição desses produtos, mas também elevou os gastos associados a eventos de formato Selado ou Draft, incluindo os populares torneios de pré-lançamento das coleções.

Por outro lado, o crescente número de reimpressões de cartas, muitas delas esquecidas por décadas em fichários, provocou uma série de reações em diferentes segmentos da comunidade do MTG. Jogadores comemoram a maior acessibilidade proporcionada por essas reimpressões, desde que não causem perturbações significativas em certos formatos, como o Pauper. Colecionadores, por sua vez, veem a perda de prestígio de suas posses antigas e raras quando essas cartas são reeditadas, mesmo que sejam de coleções distintas.

Os lojistas, por outro lado, sofrem prejuízos consideráveis, uma vez que investem pesadamente em cartas avulsas, apenas para testemunhar quedas acentuadas nos preços pouco tempo depois. Esse cenário contribuiu para a decisão recente de uma das lojas mais renomadas do mundo do Magic, a Troll and Toad, retirar cartas avulsas e seladas do Magic de seu catálogo.

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Esquematização dos novos Boosters de Jogo (Play Boosters). | Wizards of the Coast

Cenário competitivo

Muitos protestos têm sido realizados nas redes sociais a respeito de uma série de mudanças ocorridas no cenário competitivo ao longo dos anos. Além das mudanças nas formas de classificação para torneios de maior porte, do fim aparente dos Grand Prix, substituídos pelos MagicCons, reduzindo a chance de realização de grandes eventos no Brasil, do grande foco dado à realização de eventos virtuais com o uso do MTG Arena, são vários os motivos que tem afastado grandes jogadores do Magic: the Gathering, não raro empurrando-os para alternativas como o Flesh and Blood.

No nível das lojas locais, somadas a problemas como a alta frequência de lançamentos de coleções, essas mudanças também têm contribuído para reduzir a comunidade de jogadores de determinados formatos.

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Grand Prix São Paulo 2014 | via Estrutura Ludens

O amor pelo Magic: the Gathering e a falta de empatia

Sabemos que muitas das pessoas insatisfeitas com a situação atual do Magic: the Gathering expõem suas críticas e frustrações com as mudanças por gostarem do jogo como ele é em essência, por terem investido muito tempo e dinheiro no hobby e por fazerem parte e valorizarem as comunidades de jogadores de que fazem parte.

Não é raro que seus comentários sejam rebatidos com frases como “é só você parar de jogar”, o que demonstra falta de empatia com aqueles que começaram a jogar Magic em outra época e que se importam com o “flavor”, com a estética e o lado imaginativo que o jogo apresentou e continua a apresentar no seu “Universes Within“, o MTG em essência.

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Arte de Dominaria United. | Ilust. Bram Sel | Wizards of the Coast

Um olhar realista

Diante do exposto, é essencial manter uma perspectiva realista. O Magic: the Gathering continua a crescer exponencialmente em termos de vendas. É altamente provável que a base de jogadores cresça consideravelmente com as polêmicas parcerias introduzidas pelo Universes Beyond, mesmo que alguns veteranos deixem o jogo ou a taxa de retenção de novatos seja menor do que o esperado.

A estratégia aparente da Wizards é transformar o Magic: the Gathering em uma plataforma mais voltada para o público casual, e o sucesso estrondoso do Commander é um reflexo claro disso.

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Reclamações nas redes sociais muitas vezes não afetam a empresa, que continua a lucrar consideravelmente com sua estratégia atual de vendas. Portanto, para os jogadores insatisfeitos, além da desagradável opção de simplesmente abandonar o Magic, existem outras ações que podem ser tomadas.

Conecte-se com a comunidade

Em vez de simplesmente assistir passivamente às mudanças que não lhe agradam como jogador, é hora de fazer sua voz ser ouvida na comunidade local. Este ambiente é mais acessível para causar um impacto real, permitindo que você proponha a organizadores e jogadores a realização de eventos com formatos únicos que celebram o Universes Within do Magic.

Além de formatos construídos oficiais, como o Padrão e o Pioneer, existem muitas oportunidades para a inovação. Nada impede que torneios locais sejam realizados em formatos menos convencionais, como o Premodern. No passado, quando as coleções do Magic eram lançadas em blocos sequenciais compostos por três coleções, alguns organizadores realizavam eventos exclusivos para esses blocos. Por exemplo, os jogadores podiam construir decks usando apenas cartas dos blocos de Alara: Fragmentos de Alara, Confluência e Alara Reunida.

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O Magic: the Gathering é um jogo social.

Havia também um formato mais raro chamado “Bring Your Own Block” (Traga o Seu Próprio Bloco), onde os jogadores construíam seus decks com três coleções de blocos diferentes, criando um leque incrível de possibilidades. Essas iniciativas podem ser facilmente retomadas hoje, mesmo com o abandono do conceito de blocos pela Wizards, pelo menos em uma sequência linear de lançamentos.

O Magic oferece uma variedade surpreendente de formatos, e sempre há espaço para a originalidade dos criadores. No entanto, é crucial que os entusiastas tomem a iniciativa e proponham suas ideias. Como o Magic é um jogo social, qualquer nova proposta dependerá da aceitação dos outros jogadores, mas isso não deve desanimar a paixão e a energia dos que desejam inovar.

Conclusão

O Magic que inicialmente cativou você ainda está presente nas coleções mais antigas e pode continuar a proporcionar entretenimento, com um pouco de esforço e, no mínimo, com um toque de tolerância. Para manter vivo o espírito do Magic e moldar o destino deste hobby, é crucial que os jogadores se tornem agentes ativos em suas comunidades locais, trabalhando incansavelmente para influenciar positivamente o jogo a partir de suas bases.

O Magic: the Gathering está morto! Vida longa ao Magic!
Kenrith, o Rei Regresso | Ilust. Kiean Yanner | Wizards of the Coast

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